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2009/03/14

Num mundo cor-de-laranja

A vida era gira no mundo cor-de-laranja. Haviam cenouras, tangerinas, laranjas, clementinas. Os carros eram laranjas, e deitavam fumo alaranjado. Altos prédios cor-de-laranja arranhavam o céu laranja, de nuvens laranjas que por sua vez deixavam imaginar sonhos também eles cor-de-laranja. A moda era sempre o laranja, todas as pessoas o vestiam, ninguém conhecia mais nada. Havia vários tons de laranja, claro, mas sempre em volta daquele tonalidade que faz abrir o apetite e dava cor à alegria dos habitantes deste mundo especial.

Eu era um dos habitantes do mundo cor-de-laranja, noutra encarnação. Ainda tenho flashes desse tempo mas não consigo enquadrar o que sinto neste mundo. Para este mundo, esta é uma a cor demasiado....bem, demasiado laranja. O céu aqui é azul, tal como o mar, e as plantas são verdes em baixo e de todas as cores em cima. As modas mudam as vontades, e até o céu muda a cor conforme a sua disposição. É lindo, mas confuso. Tudo parece encaixar perfeitamente na sua diversidade de cores, mas falta cor-de-laranja. Eu vou-me tentando adaptar, mas de vez em quando volto lá volta às minhas origens e ponho a minha camisa cor-de-laranja.

Se eu não tiver orgulho das minhas raízes, quem terá?

Talvez seja por isto que gosto de uma bela tarde de pôr do sol.

2008/12/19

Ar fresco

Ar fresco. Finalmente... a escalada que me vinha atormentando chegou ao fim...Foi desgastante, irritante, desesperante por vezes. Agora já só sinto os pulmões repletos daquele sentimento de missão cumprida. Chegado ao cume, não sei se hei-de olhar para a frente ou para trás. De um lado recordo as fases em que as árvores milenares me impediam de ver o meu objectivo, rio-me das indecisões do caminho a tomar. Está tudo tão claro, agora. Consigo literalmente ver os percursos que escolhi e os que podia ter escolhido. Ainda por cima, conto com um dia de sol claro e céu limpo. Olhando em frente, vejo que me espera uma merecida descida, até ao próximo cume da Montanha. 

Os meus pés queixam-se, mas a minha cabeça nunca esteve tão tranquila. Sento-me então para apreciar a paisagem. Que lindo.....

Apercebo-me que gosto de caminhar.

2008/12/17

Correr sem pernas

Está mesmo aqui mas parece que nunca chega...Raios partam, maldito final. Quando as coisas parecem correr bem, até já estão delineadas, cai mais um fruto da árvore da desgraça. Já sabendo o que significa, olho para a maldita peça de fruta com desdém e dou-lhe uma trinca só pela curiosidade masoquista de saber o que me espera. Um sabor horrendo, uma novidade desgraçada, a informação que precisava de ter sabido uns dias antes..Mas não consigo cuspir nem ignorar o sabor. Não só a vou mastigar, como come-la até ao fim.
Podia perfeitamente não comer e fingir que não tenho fome. Mas desta vez não.

Para já tento pensar num fruto de cada vez, vou semeando os caroços e espero que quando tudo isto acabar, as àrvores que daí cresçam sejam bem mais saborosas.

2008/12/11

Wassily

Fecho os olhos e começo. Com o pincel na mão começo com uma linha. Começo sempre com uma linha. Uma linha liga a outra, e quando dou por mim já são duas. Olho para as duas. O que me lembram? Lembram-me duas linhas, na verdade, nada mais... Fecho os olhos com mais força ainda.
Reforço cada um dos traços sem sentido, ora mais grosso ora menos recto, até que duas se tornem uma só. De repente, tenho uma ideia. Já começou! O meu pincel começa a interagir entusiasticamente com as minhas ideias e o nada passa a tudo. O insosso passa a gostoso sem que eu sequer me aperceba disso. As minhas ideias estão mais à frente. Algo despoletou uma cadeia de passos que parecem infinitos e não consigo parar....até que paro. Cheguei ao ponto. Á bifurcação. Tudo até ali está certo, sem margem para dúvida...mas tenho que continuar.até ao fim.
Sigo com uma coreografia de melhorias e correcções, alterações tão leves que são mais marcadas na minha cabeça do que na tela. Sei que nunca darei isto por terminado, mas o processo encanta-me. A caminhada têm um sentido independentemente de ter fim ou não.

E cada vez que dou 7 passos atrás para ver de longe...sei exactamente qual é a minha parte preferida: aquele traço, aquela linha...Depois penso que outras coisas poderia ter dado.

2008/11/25

O Momento

Do quente conforto do escuro veio um ruído, um frio, de uns pés que já enregelavam à horas mas só agora acordaram, e um raio de luz que lhe furou a retina acordando meia dúzia de neurónios. Usou-os para insultar a temperatura maldita e amaldiçoar as horas do sono que passam sem satisfazer. Depois de um banho mal tomado, meia penteadela no cabelo e ainda de olhos entreabertos, saiu de casa limpando com a manga do casaco o café que ainda tardava a fazer efeito. Passou a mão, ainda fria pela nuca, como que á procura de um conforto. Cá fora, foi cego por uma fachada de luz.....

- "Fodasse....." - , disse entre a porta de casa e a do carro.

À medida que ia guiando o carro com os joelhos e procurando o seu primeiro cigarro do dia no porta-luvas, aquela luz apaziguou, animando um pouco o seu espiríto e dando espaço para as palpebras conquistarem mais uns milímetros. Uma longa fila de sonâmbulos ia-se empurrando antes do semáforo. Ele conhecia aquela recta. Demorava aproximadamente 5 vermelhos. Tentou com uma pinceladas ao de leve mentalmente planear o dia que aproximava. Olhou para o retrovisor, como que à procura da coragem. Foi interrompido pelo verde.

- "Então? Anda lá!" - buzinou

Escolheu o lugar menos impróprio para estacionar, bateu a porta do carro com convicção, estalou o pescoço com dois gestos secos, lançando os ombros para trás e procurou o número 67. Duas portas abaixo da porta azul, e como lhe tinham dito, mesmo em frente àquele cinema conhecido.
Colocou a chave na fechadura, inspirou antes de a rodar, como que à procura de uma certeza.

- "Vamos...tu consegues...já fizeste isto quantas vezes?" - assegurou à maçaneta.

O sino tocou. O dia chegou. Era agora ou nunca.

2008/11/20

Bicho malvado


Acordei com uma fome desconcertante...Será fome? Fome de quê? Chocapic? Fome de água? De conhecimento? Talvez seja fome de nicotina...Ahh, tenho fome demais! Ou será que tenho fome de mais? Ou de menos? Aliás, será que esta fome é sequer minha? Se fosse minha, não seria lógico que eu soubesse como apaziguá-la?

Estou atrasado para as aulas...Para já remenda-se, mas aqui havemos de voltar.

Venha o Diabo e escolha


Polegares para cima! Portugal perdeu mas o Brasil ganhou, sofremos 6 mas marcamos 2. Levamos um baile mas era amigável. E nós gostamos de bailaricos, somos conhecidos por isso. E somos amigáveis.

Adoro Portugal, estou apaixonado pelo conceito, a sério que estou. O Zé não escolheu ser português, foi o país que o escolheu. Dizem que a vida é uma sucessão de escolhas, o que dizer então da primeira escolha delas todas? Qual foi a primeira escolha do Zé?

Se o que nos define são as escolhas que fazemos, e se fazemos as escolhas baseados no que somos, não será cada escolha em grande parte uma consequência das anteriores? O que dizer agora da primeira escolha de todas, seja ela qual for? Que andaste tu a fazer, Zé?

O Zé não sabe qual foi a sua primeira escolha. Nem eu. Porque não interessa...O importante é o lado direito da equação, o que veio a acontecer mediante o que havia para acontecer. O grande talento de nós pessoas humildes é o espírito de auto-crítica. O à vontade com que nos criticamos e olhamos para a vida como algo que tem que acontecer. Boa Zé! Mostraste que és um valente membro da orgulhosa infantaria do Quinto Império. Tens o espírito de quem quer viver e não mostrar que viveu. Sabes que podes mentir a todos menos a ti próprio e que a tua vida é o conjunto de todas as tuas memórias e dos momentos que partilhaste com quem sabe quem tu és.

E o maravilhoso é que essa vida foi, na mesma, um conjunto de todas as tuas escolhas.
Mas ainda não acabou....E agora...como é, Zé?