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2009/01/28

Nome de Código: Cotonete

Porque é que ninguém me ouve quando falo?
O que digo é verdade até ser provado mentira. Tenho esta mania desde sempre, carneiro de nome e de personalidade, sempre às turras, agarrado à minha lógica sem dar ouvidos a ninguém....mas só ás vezes. Outras vezes sou o gajo mais tranquilo do mundo, concordo com tudo, e tudo tem razão de ser de certo ponto de vista. Suponho que esta falta de consistência possa confundir os mais objectivos.

Porque é que ninguém responde quando pergunto?
O mais óbvio para todos é o grande mistério para mim. Se está sabido, divulgado, lido e arquivado, é melhor alguém me dizer, senão vai-me passar ao lado. Se prestasse mais atenção ás coisas, talvez não acontecesse, mas confio que as coisas tomam conta de si e não precisam da minha atenção. De vez em quando, lá dou uma vista de olhos nos títulos das notícias a ver se é preciso alguma coisa. Normalmente, só leio o que me interessa e deixo o mundo fazer a sua cena.



Porque tapam os ouvidos quando canto?
Incontrolável vontade de deitar cá para fora a música que expressa o meu estado de espírito é frequente no meu dia-a-dia. Verdade que tendo a repetir a mesma música e frequentemente a mesma parte da mesma música. No peito dos desafinados também bate um coração, sabiam?

Se você disser que eu desafino amor
Saiba que isso em mim provoca imensa dor
Só privilegiados têm ouvido igual ao seu
Eu possuo apenas o que Deus me deu


Porque se riem quando danço?
Certo e sabido é que tenho dois pés esquerdos. Falta de sentido de ritmo, falta de sentido estético. Mas dançar é expressar e expressar é partilhar e partilhar é bonito. Prefiro dançar mal a não dançar, e prefiro calcar do que dançar sozinho. Prefiro dançar de olhos fechados e curtir o som..

I'd rather dance with you than talk with you
So why don't we just move into the other room
There's space for us to shake, and hey, I like this tune

Sou uma pessoa estranha.

A importância do acordar

A famosa transição de papeis forçada pelo despertador. Quando passamos de sonhadores, sem preocupações nem responsabilidades para trabalhadores com afazeres atrasados para a hora de pegar no dia. Já vezes sem conta foi explicado pelos especialistas a importância do que fazer antes de ir para a cama para garantir uma boa noite de sono. No entanto, pouco é dito sobre o acordar, salvo o especial ênfase na primeira refeição do dia.

Pois eis que me ponho no papel pouco merecido de perito em acordar, com uma estória. Hoje o meu pai tentou desligar o meu alarme, na esperança de apaziguar o furioso alarme dos bombeiros que é o meu despertador, e conseguiu apenas mudar de alarme para rádio. Assim o deixou, talvez porque estava com pressa ou porque gostou do que ouviu. É que, coincidência das coincidências, o meu radio estava sintonizado para uma estação de música clássica. Depois de uns abanões que a mim pareceram pontapés, o meu antecessor lá conseguiu que eu murmurasse qualquer coisa que o satisfizesse sobre o meu estado de lucidez, e foi. Ora eu, ainda debaixo dos cobertores e sem ter aberto ainda os olhos, senti a vontade extra de acordar que se sente sempre ao ouvir música clássica, ou seja, nenhuma. Verdade seja dita que o alarme dos bombeiros já estava mais a atrofiar os meus sonhos para algo psicadélico do que a tirar-me da cama. Assim, vi-me acordado duas horas mais tarde, mas muito mais bem disposto. Atrasado? Sim, mas com vontade de estar acordado.

Portanto vos digo, meus amigos:
Se vos levantais tarde, que seja bem dispostos. Não acordem cedo, acordem bem.
Se já estás atrasado, que seja bem atrasado. Muito atrasado e muitíssimo atrasado são falácias sugeridas pelos advérbios de quantidade. Chega calmo, sereno, recuperado e diz: 'Peço imensa desculpa pelo atraso' - com um sorriso...
A manhã é feita para acordar, digo eu. Se não a consegues vencer, junta-te a ela.

2009/01/18

Always the one

Há dias...aqueles dias, aqueles momentos em que mais nada serve...

Abres o frigorífico, vês de tudo. Tudo o que não interessa. Tenho uma sede especial. Não tem um padrão estabelecido, ás vezes é depois do futebol, outras é mesmo quando acordo, a maior parte das vezes está associado ao procrastinanço. Estou dividido quanto á razão desta necessidade..É do sabor, é do rótulo, é da frescura ou da sensação? Não sei. Só posso descrever as 4 fases do que é para mim o processo de um copo de Coca-Cola:

  1. O processo de preparação: Um copo, de preferência alto e magro, com um pouco de casca de limão, apenas o suficiente para azedar um pouco a insuportável gostosice da bebida prometida. 
  2. A bebida: A garrafa deve ser retirada apenas nesta altura do frigorífico, e deve-se encontrar escorregadia de frescura. Ao desenroscar a tampa, certifica-te que ouves a felicidade das primeiras bolhinhas de gás a fugir pelo ar. Serve o néctar com o copo ligeiramente inclinado, como se fosse cerveja. Não faz mal fantasiar que és um barman experiente a servir um cocktail, dá um gosto diferente á experiência.
  3. Finalização: Se não ficaste com 1/2 cm de espuma no topo do copo, fizeste tudo mal. Deita fora e começa de novo. Pega num cubo de gelo, que fica sempre bem, e deixa-o cair no caldeirão da poção mágica. Diverte-te com a pequenas quebras e barulho que faz ao aterrar.
  4. O primeiro gole: Pousa o copo, vai fazer outra coisa, que demore menos que um minuto, para deixar a obra-prima marinar. Vai imaginando como será a experiência enquanto olhas com o canto do olho para a estabilização do gás. Aproxima-te, dá graças pelo que vais experienciar e aproveita. Inclina o copo para cima, não abras demasiado a boca. Deixa a bebida conquistar gradualmente os teus lábios, ambos os lados da tua lingua, e o teu esófago até se estabelecer no seu estômago. Não tenhas medo de quando terminares soltares um "Ahhhhhhhhhhhh" de prazer. É normal e saudável. 
O resto do copo nunca saberá tão bem. Quem me dera que todos os goles fossem como o primeiro.

No entanto, deixo-vos com um exemplo de como o Marketing pode desfavorecer o produto:
The stars will always shine, the birds will always sing
As long as there is thirst, there's always the real thing
Coca-cola is always the one
Whenever there is fun, there's always coca-cola

2009/01/14

Não sei se estás a ver...

Olha com atenção...aproxima-te se precisares. Descreve-o. Pensa no seu significado. Classifica-o, pensa em todos os seus atributos e formas, faz uma lista o mais extensa possível daquilo que te faz sentir. Saboreia-o. Cheira-o. Cala-te, ouve o que te diz. Pega-lhe, vira-o ao contrário, do avesso, de pernas para o ar. Percebe todas as particularidades do seu ser. Não é lindo?

Agora abre os olhos.

2009/01/07

Armadilhas para Ursos

Estória 1:
20 minutos de atraso, ainda em casa...Ele, na borda da cama, a ver nem sabe o quê na televisão e ela a arranjar-se lá dentro. Contém-se para não dizer nada, é sempre a mesma coisa, e das vezes que disse de pouco valeu. Acende outro cigarro porque não tem mais unhas para roer nem lábio para morder. De nada serve. Mais 10 minutos passados, chega ela, linda, tão linda que faz esquecer todo o tempo de espera, ainda mais a gente já impaciente no jantar da empresa. De cabeça inclinada, colocando com ambas mãos um impetuoso brinco cintilante, pergunta, com desdém:
- "Olha, vais assim....?"

Estória 2:
Com uma prendinha na mão, entrou sorrateiramente, já com cara de marotagem à procura da sua amada. E ali estava ela, envolta no robe preferido de ambos. Levantou os olhos e recebeu-o com o sorriso de sempre. Deixando-lhe o embrulho no colo, beijou-lhe a testa e inspirou aquele doce perfume de promessa. Esfregando as mãos dirigiu-se à cozinha para ver o que se comia, enquanto a menina se batia com o involucro vermelho. Serviu-se uma dose certa de coca-cola, cortou uma casquinha de limão e esperou o suspiro de consolação.
- "Trouxeste o talão de troca?" - ouviu da sala de estar

2008/12/30

Que dizes?

Eu sei.... não me tentem dizer que não porque eu sei. Quando encostamos as cartas elas fingem que não caem desamparadas...Equilíbrio falso das coisas, aqueles castelinhos que toda a gente sabe fazer menos eu. Se fizessem alguma coisa de útil em vez de castelinhos..

E porque é que só há quatro naipes? Eu digo-vos porquê! Porque não há dinheiro para mais! Se as cartas fossem do 1 ao 13, mas não....vamos fazer aqui a corte real, enchê-los de joias.."Mas só uma?". "Não, uma para cada naipe..." - E depois é isto! CRISE!

E quando não fazem castelinhos, jogam esses joguinhos inúteis. Gostava de saber quantas famílias já foram alimentadas à custa duma "suequinha", como eles lhe chamam. "Qual é o trunfo?", perguntam eles. Ide mas é trabalhar, pah...

E quando começam a fazer aqueles malabarismos, troca de dedos irritante..."ai que a carta desapareceu...onde está ela?". Eu não quero saber onde está a carta, percebes? E se baralhas assim com essa perícia nojenta outra vez, vais é jogar ao apanha 52! É por isto que este país não vai a lado nenhum...

Se baralhares demais o teu baralho, tens a probabilidade de ele voltar á posição inicial. Faz o que tem sentido, junta as cartas que te parecem encaixar, e para 2009 continua a construir o teu castelinho ao teu ritmo. Há gente que não jogo com o baralho todo, e nenhum de nós tem um só naipe. Somos espadas à terça-feira, copas antes de almoço....ás vezes somos de paus mas a maior parte das vezes somos de ouros.

Boas entradas.

2008/12/18

Considerações de A a ....onde?

Existe um ponto na linha do tempo, tanto na programação como na vida, em que a abstracção se interlaça com a lógica ao ponto de se tornarem indistinguiveis. Chamemos-lhe o Ponto A. O ponto da certeza.

Usamos os sentidos para percepcionar os factos concretos da existência e identificamos suas características. Vamos juntando estas peças do ser, e tentando encaixá-las até formar um puzzle coerente. Da maneira como as peças se encaixam, retiramos as regras - o sumo. E aí começa a abstração.

Este suminho permite-nos encaixar no puzzle factos que ainda não existem. O puzzle passa a ser tridimensional, e podemos rodá-lo a vê-lo de várias perspectivas. Sem novos factos, apercebemo-nos da dinâmica da estrutura, associamos lógica como cores, características como textura. O problema começa a ter estética associada. Nunca um problema é tão lindo como quando percebemos a sua complexidade.

Nesta fase, a estrutura faz parte de nós, conseguimos rodá-la, palpá-la, cheira-la, senti-la e, talvez o mais importante de tudo: moldá-la. O díficil torna-se fácil e parece que tudo faz sentido. A caminhada até ali enche-nos de orgulho, e hasteamos a bandeira da vitória. O ponto A de um problema.

Infelizmente a existência é mais complexa que isso. Um puzzle pode-se encaixar noutro puzzle, e assim sucessivamente até á total abrangência das coisas. O Ponto A absoluto é utópico, e á medida que para lá se caminha, os puzzles só parecem aumentar.

"What a man believes may be ascertained, not from his creed,
but from the assumptions on which he habitually acts."
George Bernard Shaw (1856-1950)

O que um homem acredita pode ser confirmado, não através das suas crenças, mas através dos pressupostos sob os quais habitualmente age.

Eu por mim vou conquistando puzzle a puzzle..Às vezes apercebo-me que juntei um puzzle que já toda a gente conhecia. Não me importo.

Era isto que eu tinha para dizer.

2008/12/16

A Tempestade e a Bonança

Ele para o tecto, ela para o chão. Olhavam. E continuavam olhando...Uma rotina à qual já se tinham habituado, após uma troca de berros, insultos...e depois nada. Silêncio. Mas silêncio só na ausência de som...porque por dentro havia ainda uma tempestade de coisas por dizer. Minutos e horas passados, nesse mar revolto começam a surgir frases que deveriam ter sido ditas de outra maneira. Insultos que foram longe demais. Mas agora não têm para onde ir...Afogam-se no que começa a ser já arrependimento, mas o orgulho puxa-os para baixo...

Não têm para onde ir, o que fazer
Está-lhes na natureza não dar o braço a torcer e farão o que sempre fazem...
Vão deixar passar algum tempo, esperar que algum catalizador os junte de novo e fingir que nunca aconteceu..Já os dois conhecem bem a rotina.
Mas naquela sala, debaixo daquele tecto e sobre aquele chão, era preciso dar o sinal. O raio de luz que ainda não ilumina mas promete a bonança...em breve. Lentamente cruzam o olhar, sem perder a pose, e à chuva ambos declaram tréguas, sem palavras, sem gestos.

Agora riem-se por dentro. Que estupidez...
E as coisas por dizer? Ficam para uma próxima vez...

2008/12/09

Passo a passo

Um dia. Um homem. Um passo. Todos os dias.
O tempo passa e o homem passa com ele. Dá passos em direcção ao que acredita ser o fim do dia, mas afinal é apenas o começo de um outro. Ao fim do dia, lembra os passos que deu, e planeia os que dará amanhã. Passam-se horas, e o homem a rever e planear os seus passos. Passam-se dias. Anos. Quantos passos são precisos para atingir o objectivo? Qual é o objectivo?

Enquanto isso, uma criança dá os primeiros passos.

Também o mundo caminha. Caminha não com os passos de um homem, mas com a passada de todos. Todos os que caminham. Mas caminham em direcção a quê? O que governa a passada do mundo? O tempo?

Passo a passo, o homem passa a ser um passo do tempo, e o mundo parece que fica, estático, como se nada se passasse...O que se passa afinal?

2008/12/04

Hmmmm.....

Numa banheira larga, rode a torneira de água quente no sentido contrário aos ponteiros do relógio. Coloque o tampão para não deixar a água fugir e dirija-se á sua prateleira. Escolha um livro relaxante, que facilmente se possa pegar com uma mão apenas. Se preferir, uma música também é um ótimo acompanhamento. Algo leve, mas agradável...

Aguarde entre 5 e 10 minutos até haver água suficiente para cobrir o seu corpo. Vá deixando os dedos namorar com a água, moderando qualquer briga de temperatura entre os dois. Quando se sentir pronto, deixe-se mergulhar na água.

Vá deixando os músculos enternecer, e deixe-se marinar. Junte os pensamentos do dia, da semana, da vida. Saiba que é nisto que não deve pensar. Pense em nada. Quando se aborrecer, experimente enfiar a cabeça debaixo de água e fazer bolhinhas com o sopro. Se morar num apartamento, atente como ao ter os ouvidos debaixo de água consegue ouvir os vizinhos a arrastar cadeiras. Olhe para o tecto, comente aquele branco. Vá distraindo a sua cabeça, permitindo ao seu corpo relaxar todos os músculos do seu corpo. Use o livro, concentre-se na música. Cante ou murmure a última canção que ouviu na rádio. Quando sentir a água a perder o calor, comece a pensar em dar inicio ao processo de eventualmente terminar o banho.

Termine tudo isto com uma toalha, de preferência pré-aquecida, cubra com um robe, acompanhe com umas pantufas e saboreie o resto do dia.